O Custo Cognitivo Invisível: impacto do uso excessivo de telas em idosos
Desde o início da pandemia de Covid-19, o uso de dispositivos digitais entre pessoas com mais de 60 anos aumentou de maneira significativa. Veja o que diz em artigo o médico neurologista Dr. Diego Bandeira.

Muito se discute, com razão, sobre os efeitos do uso excessivo de telas entre crianças. Pais, educadores e profissionais da saúde estão cada vez mais atentos aos riscos que o tempo prolongado diante de dispositivos digitais representa para o desenvolvimento infantil. No entanto, um grupo igualmente vulnerável permanece à margem desse debate: os idosos.
Desde o início da pandemia de Covid-19, o uso de dispositivos digitais entre pessoas com mais de 60 anos aumentou de maneira significativa. O que inicialmente servia como ponte para manter vínculos familiares, acessar missas online ou obter informações, rapidamente se transformou em hábito diário. Não é raro encontrar no consultório idosos que passam de cinco a sete horas por dia diante de telas, consumindo redes sociais, vídeos curtos, notícias, jogos ou conteúdos de entretenimento fragmentado. Esse fenômeno, silencioso, tem despertado preocupação entre nós especialistas, pois está diretamente associado a queixas crescentes de lapsos de memória, dificuldades de concentração e sensação constante de cansaço mental.
Esses sintomas muitas vezes não são explicados por doenças neurológicas estruturais ou degenerativas. Exames de imagem e testes cognitivos não indicam alterações significativas. O fator comum entre muitos desses pacientes é o uso intensivo, repetitivo e desregulado de telas. O que parece inofensivo, ou até mesmo benéfico, pode estar interferindo diretamente no funcionamento normal da atenção — e, por consequência, da memória.

Nosso cérebro não registra automaticamente tudo o que vivenciamos. Diferente de uma câmera que grava passivamente o ambiente, ele depende de um filtro chamado atenção. É esse filtro que determina o que será armazenado, o que será descartado e, portanto, o que será lembrado depois. Sem atenção, não há memória. E a atenção, ao contrário do que se imagina, é um recurso limitado, que exige esforço e consome energia mental. Quando passamos horas deslocando esse recurso para estímulos digitais contínuos e de baixa profundidade, acabamos exaurindo nossa capacidade de foco, raciocínio e retenção.
O que as redes sociais e plataformas digitais oferecem como entretenimento rápido e envolvente, na verdade, opera como um sistema de captura da atenção. A atenção é o verdadeiro produto dessas empresas — é ela que é coletada, analisada e vendida a anunciantes por bilhões de dólares. Em troca, recebemos recompensas digitais imediatas: vídeos engraçados, curtidas, sugestões personalizadas. Trata-se de um escambo moderno que nos remete ao processo colonial, quando riquezas culturais e naturais foram trocadas por espelhos e miçangas.
É preciso reconhecer, no entanto, que o uso de tecnologia não é, por si só, prejudicial. Estudos recentes indicam que, quando utilizada com moderação e propósito, a tecnologia pode até beneficiar o cérebro envelhecido. Uma meta-análise publicada na revista Nature Human Behaviour, envolvendo mais de 400 mil participantes, revelou que o uso ativo de tecnologia por idosos está associado a uma redução de até 42% no risco de desenvolvimento de comprometimento cognitivo. Atividades como aprender algo novo online, interagir com familiares por videochamada ou participar de grupos virtuais de interesse comum podem estimular áreas importantes do cérebro e trazer benefícios emocionais, como a redução de sintomas depressivos e o aumento da autoestima.

A chave, portanto, está no tipo de uso. Enquanto o uso ativo e intencional pode proteger a função cognitiva, o uso passivo, contínuo e desregulado pode acelerar o declínio da atenção, desorganizar o sono, favorecer o isolamento social e, em alguns casos, levar ao desenvolvimento de um padrão de dependência digital. Há, inclusive, estudos no Brasil e no exterior apontando que sintomas como nomofobia — o medo de ficar sem celular — já afetam parcela significativa da população idosa.
É urgente repensarmos nossa abordagem sobre tecnologia e envelhecimento. Orientar os mais velhos sobre o uso saudável das telas é tão importante quanto estimular a prática de exercícios físicos ou a adoção de uma alimentação equilibrada. A educação digital para idosos deve incluir a conscientização sobre o tempo de uso, os efeitos do uso noturno sobre o sono e a necessidade de equilibrar atividades online com interações presenciais, leitura, caminhadas, música e outras formas de estimulação cognitiva fora das telas.
Cuidar da mente é cuidar da autonomia, da memória, da identidade. E a atenção é um dos pilares dessa construção. Ao proteger esse recurso valioso, protegemos também a dignidade e a qualidade de vida dos nossos idosos. A tecnologia pode ser uma aliada poderosa, desde que usada com consciência, propósito e limites claros. O desafio contemporâneo não é rejeitar o mundo digital, mas ensinar a navegar por ele sem se perder.

Sobre o autor:
Dr. Diego Bandeira é neurologista intervencionista com foco na prevenção, diagnóstico e tratamento do AVC. Dedica-se à promoção da saúde cerebral e à educação em saúde.